

JAQUES WAGNER comprou apartamento em Salvador avaliado em R$ 9 milhões; Caso Banco Master pode decretar final da carreira política do senador
Senador foi alvo da polícia federal nesta quinta-feira (18), e passou a ser investigado sobre possível ligação com o caso banco Master
Por Mariana Barbosa, colunista do UOL, publicado em 18/06/2026
O senador JAQUES WAGNER (PT-BA) alvo de busca e apreensão nesta quinta-feira em mais uma operação da Polícia Federal relacionada ao caso Master, adquiriu recentemente um segundo imóvel no mesmo edifício onde mora desde 2011, o Victory Tower. A informação foi confirmada por funcionários do prédio.
Em sites de compra e venda, um apartamento no mesmo edifício é anunciado por R$ 9 milhões. Procurado, Wagner não se manifestou até a publicação.
O Victory Tower é um luxuoso condomínio de frente para o mar no Corredor da Vitória, um dos endereços mais caros de Salvador — e que recebeu nesta manhã as viaturas da Polícia Federal em uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras no banco de Daniel Vorcaro.
A polícia também fez buscas na casa do Senador em Brasília, onde encontrou US$ 49 mil em espécie (cerca de R$ 250 mil). Já na residência de Wagner em Salvador foram apreendidos US$ 16.795 (cerca de R$ 87 mil), 39.675 euros (cerca de R$ 236 mil) e R$ 16.500. Em nota sobre a busca e apreensão, assessoria do senador disse que os dinheiros em espécie apreendidos são "fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais".
A ação de busca e apreensão desta quinta (18) não faz referência ao imóvel no Victory Tower, mas a um outro imóvel, de R$ 2,450 milhões, que o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, teria repassado a Wagner. O apartamento mencionado na investigação é o nº 1.702 no empreendimento Poème Horto, em Salvador, da construtora Moura Dubeux. Na nota, a assessoria de imprensa de Wagner declarou que o imóvel do Poème Horto "jamais integrou o patrimônio do parlamentar".
Além do apartamento no Poème Horto, foram identificados pagamentos e repasses de R$ 12 milhões à BN Financeira, empresa da nora de Jaques Wagner, e a outras empresas de parentes do senador. A polícia também investiga se ele atuou no exercício do cargo para beneficiar o Master em questões ligadas a regulamentação do crédito consignado, ao limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e à análise da compra do BRB pelo Master, que acabou barrada pelo Banco Central.
O novo imóvel de Wagner no Mansão Victory Tower, onde ele vive hoje, fica no 14º andar, exatamente acima de seu antigo apartamento. O apartamento n.1302, até então sua principal residência em Salvador, foi comprado em 2011, por R$ 1,45 milhão, conforme consta na matrícula do imóvel e segue como sendo de sua propriedade.
O apartmento 1402 já pertenceu ao publicitário Washington Olivetto, morto em 2024. O nome de Wagner ainda não consta na matrícula do imóvel.
Condomínio Mansão Victory Tower conta com apartamentos de 278 m², sendo duas unidades por andar, com quatro suites, três vagas de garagem e vista para a Baia de Todos os Santos. O condomínio conta com piscinas, spa, cinema e um teleferico privado que dá para um pier exclusivo. O prédio é vizinho ao edifício Mansão Leonor Calmon, onde mora Augusto Lima e também ACM Neto (Antonio Carlos Magalhães Neto), ex-prefeito de Salvador.
Segundo a PF com base em mensagens de celular, Wagner enviou a Lima dados do imóvel no empreendimento Poème Horto e de um corretor. Na sequência, Lima acionou Valério Marega, dono da gestora WNT e que também foi alvo de buscas nesta quinta-feira (18), para que fosse realizada a compra do imóvel. A compra, ainda segundo as investigações, teria sido concretizada pelo advogado Daniel Monteiro, que trabalhava pro Master e já foi preso em outra fase da operação Compliance Zero. Foi Marega foi quem apresentou Lima a Daniel Vorcaro, quando Lima buscava recursos para financiar a operação de consignado do Credcesta, em 2018.
A ligação de JW com o Master
Alvo de busca e apreensão nesta quinta-feira por suas conexões com o Banco Master, Jaques Wagner é aliado de longa data de Augusto Lima, empresário baiano que foi sócio de Vorcaro desde o início do Master. Em 2024 Lima deixou a sociedade com o Master no papel, mas seguiu vinculado até o Banco Central aprovar, no ano passado, a separação do banco Voiter do grupo Master — autorizando a troca de controle para Lima e a mudança de nome para Pleno.
Antes de virar sócio de Daniel Vorcaro no Master, Lima dirigia duas associações de servidores que já atuavam oferecendo crédito consignado na Bahia, a Asteba e a Asseba. Ambas foram citadas na primeira fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes na venda de carteira de consignado do Master para o BRB.
Lima chegou a ser preso preventivamente junto com Vorcaro na primeira fase da Compliance Zero e hoje porta tornozeleira eletrônica. Ele também foi alvo de buscas nesta quinta-feira, em mais uma fase da operação Compliance Zero.
Wagner, que tem formação técnica em manutenção e origem política no meio sindical, era secretário de Desenvolvimento da Bahia em 2018, quando comandou uma privatização com suspeitas de cartas marcadas: a venda da Ebal, dona da Cesta do Povo, uma rede de supermercados estatal que dava R$ 60 milhões de prejuízo ao ano para o governo da Bahia, e que foi arrematada por Augusto Lima.
Para fazer o leilão acontecer — após duas tentativas fracassadas — a gestão do então governador da Bahia Rui Costa reduziu em 80% o preço mínimo e publicou um decreto assumindo o passivo. Lima arrematou a Ebal — dona da rede Cesta do Povo — por R$ 15 milhões.
Na época, o governo da Bahia anunciou como vencedor uma empresa chamada NGV, pertencente a um investidor espanhol chamado Ignácio Morales — de quem nunca mais se teve notícias. A NGV foi a única empresa a acessar o data room (área de dados com informações financeiras sobre o ativo) da Ebal durante o leilão e a única a fazer oferta.
Dias após o leilão, Jaques Wagner publicou um decreto que transformava um ativo aparentemente sem valor em uma operação altamente lucrativa: o programa de benefícios que os servidores só podiam usar para comprar na Cesta do Povo, então chamado de Credicesta, iria poder ser usado em qualquer estabelecimento, na modalidade crédito, podendo fazer saque no cartão e com consignação na folha do servidor. O operador poderia debitar até 30% do salário do servidor com as parcelas, com exclusividade de 15 anos sobre essa margem.
Sem concorrência e com essa margem de 30%, o Credicesta — rebatizado de Credcesta poucos meses depois, quando passou a fazer parte dos negócios do banco Máxima (antigo nome do Master) — virou um negócio altamente rentável e de baixo risco. O que teria atraído inúmeras instituições ao processo de privatização se os termos do cartão benefício tivessem sido difundidos antes da realização do leilão.
Lima conheceu Vorcaro antes do leilão, por intermédio de Valério Marega, quando buscava investidores para financiar a operação de cartão consignado ele viria a arrematar na Bahia. Posteriormente, ele se associou a Vorcaro e passou a deter 30% do Banco Master.
Lima é dono da PKL One, que é a empresa que detém o contrato com a NGV e portanto a exclusividade de 15 anos em 30% da margem da folha dos servidores. Mas os verdadeiros sócios da PKL One permanecem ocultos por uma estrutura de fundos desenhada por Daniel Monteiro — que inclui os fundos Diamond, Gardênia e MMPG — e que termina em um smart fund no exterior.
Cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira.
Sobre os valores em espécie apreendidos, a assessoria informa que o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais. Por fim, o senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá.
Por SALVANY COTRIM, diretor do site POLITICA10, com informações de MARIANA BARBOSA do site UOL





















